Atletismo brasileiro decepciona nos saltos e na pista em Londres..
Data: 13/08/2012

Publicado em 11/08/2012, às 19h50
- Jornal do Commercio (PE). 

Londres - O fim das provas no estádio Olímpico
deixou um gosto amargo para o atletismo brasileiro. Em nove dias de competição,
nenhuma medalha foi conquistada e o País colecionou decepções. "Nas provas
em que esperávamos medalhas, de fato, os resultados não corresponderam",
admitiu Ricardo d’Angelo, técnico-chefe da equipe. O Brasil ainda terá uma
última chance de ir ao pódio, na maratona masculina, que será disputada neste
domingo. "Mas nem uma medalha vai atenuar nossa frustração". Se ficar
sem pódio, será a pior apresentação do atletismo desde Barcelona/1992, quando
também zerou.



As esperanças não eram muitas, é
verdade. Antes da Olimpíada, a projeção do atletismo indicava que o País tinha
condições de conquistar bons resultados em duas provas: salto com vara e salto
em distância. Para a comissão técnica, se Fabiana Murer e Mauro Vinícius da
Silva, que foram campeões mundiais, repetissem seus melhores resultados,
medalhas eram possíveis.



"Existia a chance de sairmos
até com duas medalhas, mas isso não aconteceu", analisou D’Angelo. Maurren
Maggi, campeã olímpica em 2008, era uma incógnita, especialmente por causa de
uma lesão sofrida no quadril em maio. "Isso certamente tirou tempo de
treinos dela". A saltadora nem foi à final.



Mauro, pelo menos, chegou à
decisão da sua prova - algo que se repetiu apenas outras duas vezes com atletas
brasileiros. Campeão mundial indoor em março, passou à briga por medalhas com a
melhor marca da eliminatória - 8,11m. Mas, no dia seguinte, não passou do 7.º
lugar, com 8,01m. Com os 8,27m, a melhor marca de sua vida, teria conquistado a
prata.



No caso de Fabiana Murer, a
decepção foi maior. A campeã mundial e recordista sul-americana nem sequer
chegou à decisão. A saltadora afirmou ter enfrentado problemas com o vento na
eliminatória e ficou em 14.º lugar - as 12 primeiras disputam medalhas. Em uma
final de baixo nível técnico, em que nem a recordista mundial Yelena Isinbayeva
fez a diferença, o ouro da norte-americana Jennifer Suhr veio com 4,75m. A
melhor marca de Fabiana é 10cm maior.



QUEDA - O Brasil também esteve em
menos finais em 2012 - o número de participação de atletas na briga por
medalhas também é usado como um fator de avaliação. Em Pequim, há quatro anos,
foram seis finais: salto em altura (Jessé de Lima), salto triplo (Jadel
Gregório), salto em distância (Maurren Maggi e Keila Costa), salto com vara
(Fabiana Murer) e 4x100 metros masculino e feminino.



Em Londres, além do salto em
distância, com Mauro Vinícius, o País avançou apenas na disputa do arremesso do
peso e do 4x100 metros femininos. Na prova de campo, Geisa Arcanjo passou
despercebida, mas conseguiu um bom resultado para uma atleta jovem (tem 20
anos), em seu primeiro ano como adulta. Além de ter ido para a final, terminou
em 8.º lugar (entre 12) e fez a melhor marca pessoal (19,07m).



Entrevista do atleta Joaquim Cruz a Revista Veja de 30 de março de 2011.



Joaquim Cruz - "Com sorte, só em 2020"



O mítico medalhista de ouro dos Jogos de 1984 diz que as chances de o
Brasil ter um bom desempenho na Olimpíada de 2016, no Rio, morreram antes mesmo
de nascer.



Vá ao YouTube e digite "Joaquim Cruz 1984". O que aparece é
lmin43s de uma das mais extraordinárias provas de atletismo da história, o
tempo que o magrelo tímido nascido em Taguatinga, na periferia do Distrito
Federal, então com apenas 21 anos, levou para vencer os 800 metros nos Jogos de
Los Angeles, com novo recorde olímpico. Em 1988, na mesma prova, ficaria com a
prata. "Acho que meus dois filhos adolescentes, Kevin e Paulo, de 15 e 17
anos, nunca viraI,Íl essas imagens", diz Cruz. Há três décadas nos Estados
Unidos, ele fala português ,com sotaque. Troca algumas palavras e esquece outras.
Casado com uma professora americana, vive em San Diego, na Califórnia. Trabalha
com equipes paraolimpíadas e cuida da reabilitação de soldados feridos. Mantém
a forma ao intercalar corridas de 8 quilômetros em um dia e, no outro, 3
quilômetros e musculação. Tem apenas 5 quilos mais que os 80 do apogeu.
"Mas gosto mesmo é de basquete", avisa. "Outro dia fiz 40 pontos
numa partida." Mesmo longe do país, ele ainda é uma voz influente quando
se trata de medir os desmandos do esporte brasileiro - e personagem obrigatório
no ensaio geral para a Olimpíada de 2016, no Rio.



Já são quase trinta anos fora do Brasil. Por
que tanto tempo?



Um raciocínio interessante me vem à mente. No livro O Poder do MiTO, o
historiador americano Joseph CampbelI diz que toda aventura heroica tem início
com uma pessoa de quem alguma coisa foi retirada. Essa pessoa decide partir
para uma série de desafios além do ordinário de modo a recuperar o que foi
perdido ou descobrir o seu real propósito de vida. Somente depois de realizar
essa experiência extraordinária é que ela retoma com uma mensagem. Conheço
muitos brasileiros de diferentes profissões que tiveram de se arriscar no
exterior porque não encontraram oportunidades no Brasil.



É o seu caso? Sim, e talvez não seja



O momento de retomar com a minha mensagem. Diria, em outros termos, que
a força do universo ainda não permitiu que eu voltasse para casa. Cheguei a
ensaiar uma mudança para o Rio de Janeiro, no ano passado, mas ela não vingou.
Quando fui para os Estados Unidos, tinha no Brasil apenas minha vida simples em
Taguatinga, na periferia do Distrito Federal. Hoje, tenho mulher e filhos
adolescentes. Qualquer transferência pressupõe que eles também trabalhem e
estudem, sigam sua vida. Não conseguimos acertar esses detalhes, então a volta
foi adiada. Mas insisto: saí do Brasil, mas o Brasil não saiu de mim,
nunca. 



O que as autoridades esportivas brasileiras
deveriam fazer para manter atletas como você no país?



Deveriam apenas fazer o correm para cuidar dos filhos da nação e do
esporte a longo prazo. Eu sugeriria uma reforma geral, um leque de medidas
permanentes. Em 2005, o governo do presidente Lula, por meio do ministro do
Esporte, Agnelo Queiroz, lançou em São Paulo a Política Nacional do Esporte,
para atuar na promoção da atividade física como fator de desenvolvimento
humano, dando atenção especial à base, às escolas, como ferramenta de inclusão
social. As ideias são corretas, mas nunca saíram do papel. O resultado? Nossos
estudantes continuam sem oportunidades de praticar esporte de maneira
organizada e competitiva.



O que se faz nos Estados Unidos que inexiste
no Brasil?



Em primeiro lugar, há cultura e tradição no esporte. Há comprometimento
e participação direta de todos os responsáveis na educação esportiva da
criança. Quando digo todos, estou me referindo a governo, família, líderes
comunitários, professores, dirigentes e empresários. Todos têm a oportunidade
de participar e fazer a sua parte da melhor forma possível em patamares e
momentos diferentes. Há outro ponto: o governo pensa longe. Em 1905. por
exemplo, em decorrência de acidentes fatais durante alguns jogos de futebol
americano, o presidente Theodore Roosevelt convocou duas reuniões com os
líderes do espane universitário na Casa Branca. Houve uma reforma imediata nas
regras do jogo. Em 1906, foi fundada a National Collegiate Athletic Association
(NCAA), destinada a gerenciar especificamente os esportes universitários. Hoje,
passados 105 anos, toda a cadeia educacional acompanha o que foi imaginado no
início do século passado.



É possível medir a importância da formação
esportiva de base ainda na escola?



Está mais do que provado que o esporte na escola dá retomo para a
sociedade. Em 2004, a ONU fez um estudo em busca de uma resposta a uma pergunta
crucial: o que cada governo faz ""com a área esportiva? No fim,
computados os dados, concluiu-se que, para cada dólar investido em atividade
física na infância, o governo tem um retomo de 3,4 dólares, com a redução da
ida de meninos e meninas a centros de saúde, menos internações, melhor
qualidade de vida e, principalmente, progressos no rendimento escolar. Nos
países que investem eu políticas públicas de esporte na escola,  as
reprovações baixam expressivamente É assim em nações ricas ou pobres, não há
diferença.



Há chance de despontar no Brasil, em breve,
quem sabe para os Jogos  2016, um novo Joaquim Cruz, um atleta vitorioso
como você foi?



Sim, embora a probabilidade seja remota. Há atleta em gestação tão
promissores como Cesar Cielo. Fabiana Murer e Diego Hypolito. Mas será muito
difícil para as novíssimas promessas subir ao pódio nos Jogos de 2016, é tarde
demais. Se deixarmos de ser tão insanos e usarmos a criatividade, Com muita
sorte poderemos prepará-Ios para a Olimpíada de 2020. A Olimpíada de 2016 e,
antes disso" Copa de 2014 .



São os dois maiores eventos globais realizados
no Brasil. Passaremos constrangimento?



Eles terão sucesso se conseguirmos resgatar um legado maior para a
sociedade que a sua mera realização. Estive no Parque Olímpico em Sydney
recentemente e fiquei impressionado ao ver o fluxo de turistas ainda visitando
o I e o uso diário das instalações esportivas. Podemos dizer, hoje, que os 10
de Sydney deram certo porque daqui dez anos as instalações esportivas ainda
estão em bom estado, têm manutenção diária e são utilizadas todos os dias pelos
atletas e pela comunidade. Importa o que fica, não o que passou.



 Não seria o caso de antes melhorar I educação
esportiva para somente depois desse passo dar outro, tão grande, q sediar uma
Olimpíada?



Sem dúvida mas na verdade pouquíssimos países seguem esse raciocínio
natural. É também da nossa natureza construir um complexo esportivo com uma a
de futebol com capacidade para 100 000 torcedores no meio de um bairro
residencial para depois ameaçarmos destruir o estádio de atletismo para
instalar um estacionamento que· deveria estar incluído no projeto inicial
Cresci vendo cidades no Distrito Federal, com o incentivo de políticos, brotar
do nada, sem hospital, escolas ou estrutura de saneamento básico. Estádios
investindo pesado no esporte de alto rendimento ano após ano, mas quebrando a
cabeça porque deixamos de investir na base e agora não temos quantidade nem
qualidade para poder trabalhar.



O problema são os cartolas?



O problema é mais profundo. A conduta de alguns dirigentes é
consequência da forma como as leis foram redigidas. Se os dirigentes estão
utilizando as organizações nacionais para servir a seus interesses pessoais, é
obrigação das autoridades máximas revisar a legislação com profundidade, e
alterá-Ia. O sentimento é que todo mundo parece estar usando o esporte para
servir a si próprio.



Na Rio 2016, temos uma inédita situação: o
presidente do Comitê Olímpico Brasileiro é o mesmo do Comitê Organizador. Está
certo?



O Presidente do Comitê Olímpico Brasileiro está no esporte há muito
tempo e deve ter as razões dele para encarar tantos desafios e
responsabilidades ao mesmo tempo.



Sua medalha de ouro olímpica foi conquistada
há quase 27 anos. O Brasil esportivo melhorou de lá para cá?



Melhorou muito no aspecto de patrocinadores, instalações esportivas,
eventos internacionais e oportunidades para os atletas brasileiros, mas
infelizmente os resultados obtidos nos últimos anos não refletem o investimento
no esporte.



 Não é vergonhoso que tenha melhorado tão
pouco?



Diria que é uma grande pena não aproveitar o nosso material humano para
transformar o Brasil numa potência esportiva.



Henrique Meirelles, ex·presidente do Banco
Central, acaba de ser nomeado pela presidente Dilma Rousseff para a presidência
da Autoridade Pública Olímpica CAPO). É uma boa noticia?



Excelente. o currículo e o trabalho dele mostram que é uma pessoa ética
e séria. Ele não porá seus interesses e “ambições pessoais acima do trabalho
que terá de fazer”.



 Seu contato com o Brasil, além da família, é
um instituto dedicado a crianças carentes. Há alguns anos, porém, um lote de
sapatilhas usadas que você levaria aos meninos e meninas necessitados foi
barrado na alfândega. Por que é tão difícil querer ajudar?



Às vezes perdemos o senso de servidor público porque achamos que todo
mundo está ali só para tirar vantagem. Pagamos caro pela falta de honestidade
de alguns oportunistas. Quando cheguei com a bolsa cheia de tênis semiusados e
expliquei que eram para ser doados aos meus garotos de Taguatinga, um dos
policiais me pôs na mesma classe dos "contadores de histórias
furadas". Hoje, felizmente, o Instituto Joaquim Cruz  tem a
parceria da Nike e não há mais necessidade de trazer os calçados dos Estados
Unidos.



Uma de suas principais atividades nos Estados
Unidos, hoje, é cuidar da reabilitação de soldados feridos em guerras,
amputados. Qual é a emoçãoproporcionada por esse tipo de trabalho?



Trabalhar com soldados, muitos deles amputados, é gratificante. Tenho a
oportunidade de conviver com indivíduos jovens que dedicaram sua vida a algo
maior que eles próprios e retomaram como heróis nacionais. As histórias deles
me sensibilizam e mantêm meus pés no chão.



 Quem foi - ou é - o maior esportista da
história do Brasil?



Ayrton Senna foi um grande competidor. Dedicou sua curta existência a
desafiar os limites, todos. Foi um atleta-modelo dentro e fora do palco de
competições. Hoje celebramos o sacrifício dele nos projetos sociais que estão
espalhados pelo Brasil.



 Houve alguém que tinha tudo para ser um
gigante, um monstro sagrado, mas não conseguiu chegar lá?



João do Pulo tinha potencial para ser o Jesse Owens do Brasil. Não
conseguiu o ouro olímpico, e é uma pena que tenha morrido tão cedo, depois de
uma vida trágica.



Ao falar da ansiedade que antecede uma grande competição, você chegou a
dizer: "Se você não se controlar, não consegue dormir, e, se não dormir,
está morto como competidor".



 Como dorme um ex-campeão olímpico longe do
tempo de fama?



Até pouco tempo atrás, eu ainda tinha sonhos de chegar atrasado para as
competições nas Olimpíadas. Hoje meus dragões internos estão em paz. As imagens
da minha experiência no esporte como atleta estão se distanciando na minha
mente. Agora elas são preenchidas com as imagens dos meus filhos e as novas
oportunidades de trabalho. Meus dois filhos, de 15 e l7 anos, mal sabem quem
fui no atletismo. Gostam de basquete. Gostam de música, tocam piano. Posso
dizer que, levados a falar de esporte, roubaram minha idéia: nunca escondi que
sempre preferi o basquete ao atletismo, e olhe que fui um excelente jogador
antes de começar a correr. Não gosto de me vangloriar, eu e minha mulher
levamos uma vida extremamente simples, então sigamos em frente.